A Premier League 2019-20 entrou para a história do futebol inglês por razões que extrapolam o campo: foi a temporada em que o Liverpool encerrou uma espera de 30 anos pelo título nacional, a primeira a contar com o VAR e também a primeira interrompida por uma pandemia global. Ao fim das 38 rodadas, os Reds acumularam 99 pontos — a maior pontuação já registrada por um campeão inglês até então —, enquanto Norwich City, Watford e Bournemouth desceram à segunda divisão e o Sheffield United, promovido, surpreendeu com uma campanha sólida no meio da tabela.
Visão geral da temporada
A edição contou com 20 clubes, 380 partidas disputadas e 1.034 gols marcados, resultando em uma média de 2,72 tentos por jogo — índice que reflete uma liga ofensiva e vigorosa. A temporada foi marcada por três estreias simultâneas: a tecnologia do árbitro de vídeo (VAR) (Wikipédia), a transmissão de 20 jogos pela Amazon Prime no Reino Unido (Wikipédia) e uma pausa de inverno em fevereiro, inédita no calendário inglês (Wikipédia). Em março, o futebol profissional na Inglaterra foi suspenso entre os dias 13 de março e 4 de abril em razão da pandemia de COVID-19 (Wikipédia), tornando esta uma das temporadas mais atípicas da era moderna da competição. Após a retomada, a liga foi concluída em sua totalidade, preservando a integridade dos resultados.
O campeão e como o Liverpool conquistou o título
O Liverpool de Jürgen Klopp não apenas venceu a Premier League — ele a dominou de forma estatisticamente avassaladora. Com 32 vitórias, 3 empates e apenas 3 derrotas em 38 jogos, os Reds terminaram com 99 pontos e aproveitamento de 86,8%. O título foi confirmado matematicamente na 31ª rodada, com 26 pontos de vantagem sobre o Manchester City (Wikipédia), tornando-se o primeiro campeão inglês da história do clube após 30 anos de espera (Wikipédia).
Os números defensivos foram o alicerce da conquista: o Liverpool sofreu apenas 33 gols em 38 partidas — a melhor defesa da competição —, com saldo de +52. A linha de fundo foi um dos grandes trunfos táticos da equipe, com os laterais Trent Alexander-Arnold e Andrew Robertson figurando entre os melhores assistentes da liga. Ofensivamente, o time marcou 85 gols, o segundo maior total da temporada, combinando eficiência e repertório variado.
A vantagem de 18 pontos sobre o terceiro colocado, Manchester United, e a consistência ao longo de todas as fases — inclusive após a retomada pós-pandemia — evidenciam que o título não foi obra do acaso, mas resultado de uma construção coletiva sólida e sem oscilações relevantes.
A briga pelo G4 e a classificação para a Champions League
Atrás do Liverpool na tabela, a disputa pelo segundo lugar e pelas demais vagas continentais foi bem menos tranquila. O Manchester City terminou na segunda posição com 81 pontos — desempenho que, em qualquer outra temporada, seria suficiente para vencer a liga com folga, mas que desta vez representou uma diferença de 18 pontos para o campeão. O City foi o time com o melhor ataque da Premier League, com impressionantes 102 gols marcados e saldo de +67.
O terceiro e quarto lugares ficaram com Manchester United e Chelsea, ambos com 66 pontos. O United levou a melhor na classificação por ter obtido um saldo de gols superior (+30 contra +15). A diferença entre os dois, apesar de o Chelsea ter mais vitórias (20 a 18), reflete como o saldo de gols pode ser determinante na separação de equipes igualmente pontuadas. Ambos garantiram vaga na Liga dos Campeões da UEFA.
Fora do G4, o Leicester City foi o grande destaque, encerrando na quinta posição com 62 pontos — apenas quatro atrás do Chelsea — e protagonizando um dos resultados mais expressivos da temporada. O Tottenham terminou em sexto com 59 pontos, empatado com o Wolverhampton, que ficou em sétimo pela diferença de vitórias. O Arsenal, oitavo colocado com 56 pontos, completou o grupo das equipes com mais de 50 pontos, num pelotão intermediário bastante competitivo.
- 1º Liverpool — 99 pts | 32V 3E 3D | GP: 85 | GC: 33 | SG: +52
- 2º Manchester City — 81 pts | 26V 3E 9D | GP: 102 | GC: 35 | SG: +67
- 3º Manchester United — 66 pts | 18V 12E 8D | GP: 66 | GC: 36 | SG: +30
- 4º Chelsea — 66 pts | 20V 6E 12D | GP: 69 | GC: 54 | SG: +15
- 5º Leicester — 62 pts | 18V 8E 12D | GP: 67 | GC: 41 | SG: +26
Uma menção especial merece o Sheffield United, clube promovido da segunda divisão junto com o Norwich City e o Aston Villa (Wikipédia). Enquanto dois de seus companheiros de acesso foram rebaixados, o Sheffield Utd terminou na nona posição com 54 pontos, saldo de gols zerado (39 a 39) e um desempenho que desafiou todas as projeções para uma equipe recém-chegada à elite.
A zona de rebaixamento
A disputa pela permanência teve desfechos distintos em termos de antecipação. O Norwich City, que havia retornado à Premier League após três anos de ausência (Wikipédia), encerrou a temporada na lanterna com apenas 21 pontos — o pior desempenho da liga. Com 27 derrotas, apenas 5 vitórias, 26 gols marcados e 75 sofridos, o saldo de -49 expõe a fragilidade de um elenco que não conseguiu se adaptar ao nível da competição.
Watford e Bournemouth terminaram empatados em pontos (34 cada), mas com diferentes saldos de gols: -28 e -25, respectivamente. O Watford teve 8 vitórias, 10 empates e 20 derrotas; o Bournemouth, 9 vitórias, 7 empates e 22 derrotas. Apesar da proximidade nos números, ambos caíram com relativa margem em relação ao primeiro time fora da zona.
O Aston Villa, também promovido na mesma temporada (Wikipédia), escapou do rebaixamento com apenas um ponto de vantagem sobre o Bournemouth — 35 contra 34 —, terminando na 17ª posição. Com 9 vitórias, 8 empates e 21 derrotas, o Villa foi o time a escapar na margem mais estreita possível, evidenciando como a zona de rebaixamento foi disputada com extrema tensão até as rodadas finais.
- 17º Aston Villa — 35 pts | SG: -26 (permaneceu)
- 18º Bournemouth — 34 pts | SG: -25 (rebaixado)
- 19º Watford — 34 pts | SG: -28 (rebaixado)
- 20º Norwich — 21 pts | SG: -49 (rebaixado)
Artilharia e destaques individuais
A artilharia da temporada ficou com Jamie Vardy, do Leicester City, que marcou 23 gols em 35 jogos disputados — uma média superior a 0,65 gols por partida. O centroavante inglês superou Danny Ings, do Southampton, e Pierre-Emerick Aubameyang, do Arsenal, ambos com 22 gols. A disputa entre os três foi decidida pelo menor detalhe, com Vardy levando a melhor com apenas um gol de diferença para os perseguidores mais próximos. Raheem Sterling, do Manchester City, marcou 20 gols em apenas 33 partidas, e Mohamed Salah, do Liverpool, completou o top 5 com 19 tentos em 34 jogos.
- 1º J. Vardy (Leicester) — 23 gols | 5 assistências | 35 jogos
- 2º D. Ings (Southampton) — 22 gols | 2 assistências | 38 jogos
- 3º P. Aubameyang (Arsenal) — 22 gols | 3 assistências | 36 jogos
- 4º R. Sterling (Manchester City) — 20 gols | 1 assistência | 33 jogos
- 5º Mohamed Salah (Liverpool) — 19 gols | 10 assistências | 34 jogos
No quesito assistências, Kevin De Bruyne, do Manchester City, foi o jogador mais criativo da liga — e um dos mais dominantes nesse fundamento que a Premier League registrou em anos recentes. O meia belga distribuiu 20 assistências em 35 jogos, além de contribuir com 13 gols, totalizando 33 participações diretas em tentos. Seu desempenho rendeu o prêmio de melhor jogador da temporada (Wikipédia). Atrás de De Bruyne, dois laterais do Liverpool completaram o pódio das assistências: Trent Alexander-Arnold com 13 passes para gol em 38 jogos, e Andrew Robertson com 12 em 36 partidas — evidência concreta de como a equipe construiu seu jogo a partir das laterais.
- 1º K. De Bruyne (Manchester City) — 20 assistências | 13 gols | 35 jogos
- 2º T. Alexander-Arnold (Liverpool) — 13 assistências | 4 gols | 38 jogos
- 3º A. Robertson (Liverpool) — 12 assistências | 2 gols | 36 jogos
- 4º Mohamed Salah (Liverpool) — 10 assistências | 19 gols | 34 jogos
- 5º Son Heung-Min (Tottenham) — 10 assistências | 11 gols | 30 jogos
No campo disciplinar, três jogadores dividiram a liderança em cartões amarelos com 12 cada: Jefferson Lerma (Bournemouth, 33 jogos), Romain Saïss (Wolves, 33 jogos) e Luka Milivojević (Crystal Palace, 31 jogos). Em cartões vermelhos, David Luiz, do Arsenal, e Son Heung-Min, do Tottenham, lideraram com 2 expulsões cada. Son realizou essa marca em apenas 30 jogos, combinando com seus 11 gols e 10 assistências para traçar um perfil de jogador de alto impacto mas com disciplina comprometida.
Números e curiosidades da temporada
Além dos dados individuais e coletivos já mencionados, a temporada reservou algumas marcas dignas de registro. A maior goleada da edição foi Southampton 0–9 Leicester City, registrada em 25 de outubro de 2019 (Wikipédia) — resultado que, não por acaso, envolveu o time do artilheiro Jamie Vardy e ajudou a projetar o Leicester como uma das revelações do ano.
O Manchester City, apesar do vice-campeonato, foi o único time a ultrapassar a marca de 100 gols marcados na temporada, encerrando com 102 — índice extraordinário que, mesmo assim, não foi suficiente diante da solidez defensiva do Liverpool. A defesa dos Reds, com apenas 33 gols sofridos, foi a mais eficiente da liga, 2 a menos do que o City (35 gols concedidos), mostrando que as duas melhores equipes adotaram filosofias distintas: ataque máximo de um lado, equilíbrio defensivo de outro.
A tabela final revela ainda um campeonato com enorme compactação no meio: da quinta à décima posição, os times acumularam entre 54 e 62 pontos, num intervalo de apenas 8 pontos para seis clubes. No extremo oposto, a distância entre o campeão Liverpool (99 pontos) e o vice Manchester City (81) — 18 pontos — foi uma das maiores da história da liga na era dos três pontos por vitória.
Por fim, a introdução do VAR (Wikipédia) deixou sua marca na temporada não apenas nas estatísticas, mas no debate público em torno da arbitragem. A tecnologia foi aplicada pela primeira vez de forma sistemática na Premier League, alterando dinâmicas de jogo e influenciando resultados ao longo das 380 partidas disputadas. Independentemente das polêmicas inerentes à adaptação, a liga encerrou a edição com uma média de 2,72 gols por jogo — sinal de que a produção ofensiva não foi prejudicada pela nova ferramenta.































































