O Brasileirão Série A de 2020 ficará marcado como uma das edições mais disputadas e atípicas da história recente do futebol nacional. Realizado inteiramente com portões fechados ao público em razão da pandemia de COVID-19, o campeonato se estendeu até fevereiro de 2021 — a primeira vez desde a Copa João Havelange, em 2000, que o torneio se encerrou no ano seguinte ao de sua realização (Wikipédia). Ao longo de 380 partidas, a Série A entregou um G4 comprimido em apenas cinco pontos, uma briga pelo título decidida na última rodada e uma zona de rebaixamento cruel com a queda de times históricos.
O campeão e a conquista do bicampeonato
O Flamengo encerrou a temporada como bicampeão consecutivo do Brasileirão, com 71 pontos conquistados em 38 jogos: 21 vitórias, 8 empates e 9 derrotas. O título, porém, não veio de forma tranquila. Na última rodada, o Rubro-Negro carioca foi derrotado pelo São Paulo por 2 a 1 no Estádio do Morumbi, mas ainda assim manteve a taça graças ao empate sem gols entre Internacional e Corinthians, ocorrido simultaneamente (Wikipédia). A equipe chegou à última rodada com apenas um ponto de vantagem sobre o rival gaúcho, o que faz da conquista um feito marcado pela tensão até os minutos finais.
Em termos ofensivos, o Flamengo foi o time que mais balançou as redes na competição: 68 gols marcados, o melhor ataque do torneio. Ao mesmo tempo, o saldo de gols positivo de 20 e um aproveitamento de 62,3% consolidam um desempenho sólido, ainda que a defesa, com 48 gols sofridos, não tenha sido a mais eficiente entre os grandes candidatos ao título. A margem sobre o vice-campeão foi mínima — apenas um ponto —, o que dá a dimensão da pressão exercida pelo Internacional até o último apito.
A briga pelo G4 e as classificações para a Libertadores
A disputa pelas quatro vagas para a Copa Libertadores de 2021 foi a mais acirrada que o formato de pontos corridos pode oferecer. Apenas cinco pontos separaram o campeão (Flamengo, 71 pts) do quarto colocado (São Paulo, 66 pts), com Internacional (70 pts) e Atlético-MG (68 pts) completando o bloco. Flamengo e Internacional chegaram à última rodada com chance real de título — um cenário que não se via no campeonato brasileiro desde 2011 (Wikipédia).
- Internacional (2º, 70 pts): Vice-campeão com a melhor defesa do torneio — apenas 35 gols sofridos em 38 jogos —, saldo positivo de 26 (o maior de toda a tabela) e 20 vitórias. O Colorado estabeleceu um recorde histórico ao vencer nove partidas consecutivas durante o campeonato, superando marcas de Cruzeiro (2003) e do próprio Flamengo (2019), que haviam vencido oito seguidas (Wikipédia). Com apenas 8 derrotas, foi o time menos derrotado da edição.
- Atlético-MG (3º, 68 pts): Terceiro colocado com 20 vitórias e 64 gols marcados, o Galo apresentou o segundo melhor ataque da competição. O saldo de 19 gols e apenas 10 derrotas mostram consistência ao longo dos 38 jogos.
- São Paulo (4º, 66 pts): O Tripaulista fechou o G4 com 18 vitórias e 12 empates — o maior número de empates entre os quatro primeiros —, além de ter produzido o artilheiro da temporada em seu elenco. Com 59 gols marcados e apenas 41 sofridos, o São Paulo apresentou o segundo melhor saldo entre os classificados para a Libertadores.
Na sequência, Fluminense (5º, 64 pts) ficou a dois pontos do G4, configurando uma zona de classificação amplíssima. Grêmio (6º, 59 pts) e Palmeiras (7º, 58 pts) completaram os times com campanha acima de 55 pontos. O Palmeiras, curiosamente, encerrou o campeonato com a segunda melhor defesa entre todos os clubes — apenas 37 gols sofridos —, mas o aproveitamento modesto nas vitórias (15 em 38 jogos) impediu uma posição mais ambiciosa.
A zona de rebaixamento
Quatro clubes desceram para a Série B: Botafogo, Coritiba, Goiás e Vasco da Gama. A queda de todos eles foi marcada por números que evidenciam campanhas muito abaixo do restante do pelotão.
- Botafogo (20º, 27 pts): O pior desempenho da edição. Apenas 5 vitórias, 21 derrotas e saldo de -30 — o mais negativo de toda a tabela. O clube sofreu o terceiro rebaixamento de sua história e se tornou a primeira equipe da edição a ter o descenso matematicamente confirmado, com quatro rodadas ainda a disputar (Wikipédia). Com 62 gols sofridos, dividiu com o Goiás o posto de defesa mais vazada do campeonato.
- Coritiba (19º, 31 pts): Sete vitórias e 21 derrotas. Com apenas 31 gols marcados — o menor volume ofensivo de todo o torneio, empatado com o Sport Recife — e 54 sofridos, o Coxa não conseguiu construir uma consistência mínima durante toda a temporada.
- Goiás (18º, 37 pts): Com 9 vitórias e 19 derrotas, o Esmeraldino sofreu 63 gols — o pior número defensivo de toda a competição, um a mais que o Botafogo. Mesmo marcando 41 gols, o saldo de -22 foi determinante para a queda.
- Vasco da Gama (17º, 41 pts): O rebaixamento do Cruzmaltino foi o mais dramático entre os quatro. Com 41 pontos — igual ao Fortaleza (16º), mas inferior no saldo de gols (-19 contra -10) —, o Vasco caiu por detalhes. A queda também representou um recorde negativo: o clube entrou para a história como a equipe do chamado G-12 do futebol brasileiro com o pior saldo de gols no momento do rebaixamento (Wikipédia), com -19.
Vale destacar que a diferença entre a 17ª colocação (Vasco, 41 pts) e a 16ª (Fortaleza, 41 pts) foi decidida pelo saldo de gols, o que evidencia a crueldade da margem nessa zona da tabela. Sport Recife (15º, 42 pts) escapou por apenas um ponto do rebaixamento.
Artilharia e destaques individuais
A artilharia da temporada terminou empatada. Luciano, do São Paulo, e Claudinho, do Red Bull Bragantino, dividiram o posto com 18 gols cada (Wikipédia). A diferença entre os dois é que Claudinho atuou em mais jogos (35 contra 31) e ainda somou 6 assistências, enquanto os dados de assistências de Luciano não estão disponíveis para comparação direta.
Claudinho foi eleito o melhor jogador da competição (Wikipédia) — distinção rara para um atleta de um clube recém-promovido à elite. O meio-campista do Bragantino combinou eficiência ofensiva com volume de participação, sendo peça central em uma das campanhas mais surpreendentes da edição: o clube terminou em 10º lugar com 53 pontos, uma performance acima do esperado para uma equipe em seu primeiro ano de volta à Série A sob nova identidade.
Entre os artilheiros, Marinho (Santos) e Thiago Galhardo (Internacional) marcaram 17 gols cada, com Marinho acumulando ainda 7 assistências em apenas 27 jogos — o que representa uma média notável de participação em gols. Gabriel Cano (Vasco da Gama) completou o top 5 com 14 gols em 34 partidas, sendo o principal destaque individual de um clube que terminou rebaixado.
O prêmio de melhor técnico da edição foi para Abel Braga (Wikipédia), que conduziu o Internacional à vice-liderança e ao recorde de sequência de vitórias.
Destaques em assistências e disciplina
No ranking de assistências, três jogadores dividiram a liderança com 9 passes para gol cada: Vina (Ceará), Keno (Atlético-MG) e G. de Arrascaeta (Flamengo). O uruguaio Arrascaeta se destacou ainda pela disciplina exemplar — 9 assistências e 8 gols em 28 jogos, sem nenhum cartão amarelo sequer ao longo de toda a temporada. Marinho (Santos) e Bruno Henrique (Flamengo) completaram o top 5 de assistências, ambos com 7.
No campo disciplinar, Felipe Ferreira (Fortaleza) liderou o ranking de cartões amarelos com 13 advertências em 33 jogos. Bruno Henrique (Flamengo) recebeu 11 amarelos — o maior número entre os jogadores das equipes do G4 —, e Gregore (Bahia) também somou 11, além de 1 expulsão. Daniel (Bahia) e Zé Gabriel (Internacional) foram os únicos jogadores a acumular 2 cartões vermelhos na temporada.
Números e curiosidades da temporada
As 380 partidas da Série A 2020 produziram 944 gols, com média de 2,48 tentos por jogo — um indicador de competitividade ofensiva acima da média histórica recente do campeonato. Todas as 380 partidas contaram com tecnologia VAR disponível (Wikipédia), marcando uma consolidação do recurso no futebol brasileiro.
- O melhor ataque foi o do Flamengo, com 68 gols marcados.
- A melhor defesa foi a do Internacional, com apenas 35 gols sofridos — 13 a menos que o segundo colocado nesse quesito, o Palmeiras (37 gols sofridos).
- O Corinthians terminou em 12º lugar com saldo de gols zero: 45 marcados e 45 sofridos, em um equilíbrio quase matemático ao longo da temporada.
- A Corinthians também protagonizou a maior goleada registrada nos FATOS da edição: 5 a 0 sobre o Fluminense na Neo Química Arena, pela 29ª rodada, em 13 de janeiro (Wikipédia).
- O Grêmio (6º) encerrou o campeonato com 17 empates — o maior número entre todos os times — e apenas 7 derrotas, combinação que reflete um estilo conservador e pouco permeável.
- A diferença de pontos entre o campeão (71 pts) e o último colocado (Botafogo, 27 pts) foi de 44 pontos, ilustrando o abismo entre o topo e a base da tabela, ainda que o G4 em si tenha sido extremamente disputado.
O Brasileirão Série A de 2020 encerrou-se como um retrato fiel das contradições do futebol brasileiro em um ano fora do comum: de um lado, uma disputa pelo título emocionante até o último segundo; de outro, clubes históricos caindo sem conseguir acumular pontos suficientes para se manter na elite. A pandemia retirou o público das arquibancadas, mas não esvaziou o interesse nem a intensidade de uma das edições mais equilibradas e memoráveis da competição no formato de pontos corridos.




































































